O teatro é o único lugar onde a mentira tem a decência de se anunciar com três batidas de sino e cobrar ingresso pela honestidade do artifício.
Enquanto a plateia se acomoda para dissecar o drama alheio, ignora a ironia de que a encenação mais rigorosa ocorre no saguão, onde máscaras sociais são ajustadas sob o pretexto de civilidade e monólogos internos são abafados por risos protocolares. Buscamos no palco a verdade que nos falta na sala de estar, como se precisássemos de refletores e coxias para validar o que é humano, transformando a catarse em um mero serviço terceirizado. O ápice do absurdo não reside no ator que morre e se levanta para o aplauso, mas no espectador que sai do transe apenas para retomar seu papel coadjuvante na burocracia do mundo real. O espetáculo termina, mas a farsa não aceita bis.