A cidade é o palco onde todos atuam, mas ninguém quer ler o roteiro.
Diz-se que o teatro é o espelho da vida, o que explica por que a maioria das salas encravadas no centro da cidade cheira a mofo e a glórias de um passado que ninguém de fato viveu. Cruzar o saguão de um edifício histórico, desviando habilidosamente de poças de procedência duvidosa e de abordagens pouco poéticas na calçada, é o primeiro ato de uma peça que o público finge não encenar. Ali dentro, entre veludos gastos e uma iluminação que tenta, sem sucesso, esconder as rachaduras no teto, a elite cultural se acotovela para consumir doses homeopáticas de "humanidade", devidamente higienizadas pelo preço do ingresso e protegidas pelo isolamento acústico que mal dá conta do ruído das buzinas lá fora.
O espetáculo, no entanto, raramente está no palco. Enquanto o ator se contorce em um monólogo hermético sobre a angústia existencial do ser contemporâneo, o espectador na quarta fila experimenta a angústia real de ter deixado o carro em um estacionamento que fecha impreterivelmente às dez. É um exercício fascinante de ironia: buscamos a catarse em dramas gregos ou experimentações pós-modernas, enquanto a cidade, esse palco sem ensaio e de cenografia brutalista, oferece tragédias e comédias de graça em cada esquina. O teatro finge que a cidade não existe para poder criticá-la, e a cidade, em sua pressa absoluta, retribui o gesto tratando o teatro como um adereço decorativo, uma relíquia de gesso que insiste em respirar num aquário de luzes artificiais.
A verdade é que a cara do teatro hoje é uma máscara de "intelectualidade" que já não cabe no rosto cansado da metrópole. Queremos a reflexão, mas desde que ela venha com ar-condicionado e não nos obrigue a olhar nos olhos do figurante que dorme no banco da praça ao lado do foyer. No fim das contas, a plateia aplaude a si mesma por ter suportado duas horas de metáforas, saindo apressada para o asfalto antes que a realidade decida cobrar o couvert artístico.
O espetáculo, no entanto, raramente está no palco. Enquanto o ator se contorce em um monólogo hermético sobre a angústia existencial do ser contemporâneo, o espectador na quarta fila experimenta a angústia real de ter deixado o carro em um estacionamento que fecha impreterivelmente às dez. É um exercício fascinante de ironia: buscamos a catarse em dramas gregos ou experimentações pós-modernas, enquanto a cidade, esse palco sem ensaio e de cenografia brutalista, oferece tragédias e comédias de graça em cada esquina. O teatro finge que a cidade não existe para poder criticá-la, e a cidade, em sua pressa absoluta, retribui o gesto tratando o teatro como um adereço decorativo, uma relíquia de gesso que insiste em respirar num aquário de luzes artificiais.
A verdade é que a cara do teatro hoje é uma máscara de "intelectualidade" que já não cabe no rosto cansado da metrópole. Queremos a reflexão, mas desde que ela venha com ar-condicionado e não nos obrigue a olhar nos olhos do figurante que dorme no banco da praça ao lado do foyer. No fim das contas, a plateia aplaude a si mesma por ter suportado duas horas de metáforas, saindo apressada para o asfalto antes que a realidade decida cobrar o couvert artístico.